Ver um filho fazer esforço para respirar enquanto dorme ou perceber que a criança para de respirar dormindo é uma situação que naturalmente preocupa qualquer família. É um cenário que assusta e, sobretudo, é um sinal que não deve ser ignorado.
A apneia do sono em crianças pode comprometer a qualidade do sono e interferir no desenvolvimento infantil quando permanece sem diagnóstico e tratamento.
Em muitos casos, os sinais aparecem apenas durante a noite e passam despercebidos até que alguém observe a criança dormindo. Em outros, as primeiras manifestações surgem durante o dia, por meio de mudanças no comportamento, dificuldades de aprendizagem, cansaço persistente ou alterações no crescimento.
Como essas consequências nem sempre são associadas aos sintomas de apneia infantil, o diagnóstico pode demorar mais do que deveria. A boa notícia é que a investigação precoce permite identificar a causa da obstrução das vias aéreas e indicar o tratamento mais adequado.
O que é a apneia do sono infantil?
A apneia do sono infantil é um distúrbio caracterizado pelo bloqueio total da respiração por alguns segundos durante o sono. Esses episódios provocam quedas temporárias na oxigenação do sangue e levam o cérebro a realizar microdespertares para restabelecer a passagem do ar. Quando se repetem ao longo da noite, esses episódios podem comprometer a qualidade do sono e interferir no desenvolvimento da criança.
Na infância, a forma mais comum é a apneia obstrutiva do sono, que ocorre quando existe um estreitamento ou bloqueio das vias aéreas superiores durante o relaxamento natural da musculatura. Como consequência, o organismo interrompe repetidamente o ciclo normal do sono para restabelecer a respiração, mesmo que a criança não desperte completamente.
Embora o bloqueio total caracterize a apneia, também podem ocorrer episódios de redução parcial da passagem de ar, conhecidos como hipopneias, que também prejudicam a oxigenação e a qualidade do sono.
Na maioria das vezes, esses microdespertares passam despercebidos pelos pais. Ainda assim, eles impedem que a criança permaneça tempo suficiente nas fases profundas do sono, fundamentais para a recuperação do organismo, a consolidação da memória e a liberação do hormônio do crescimento (GH).
Como identificar se meu filho tem apneia do sono?
A apneia do sono em crianças costuma se manifestar por uma combinação de sinais observados durante a noite e de alterações percebidas ao longo do dia. Embora o ronco seja frequente, ele não é o único indicativo da doença nem está presente com a mesma intensidade em todas as crianças.
O principal sinal de alerta é quando a criança para de respirar dormindo, ainda que por poucos segundos, e depois retoma a respiração com esforço, um engasgo ou um ronco mais intenso. Esses episódios podem se repetir diversas vezes durante a madrugada e, muitas vezes, passam despercebidos se ninguém observar atentamente.
Além das pausas respiratórias, existem outros sintomas que ajudam o médico a levantar a suspeita clínica e direcionar a investigação.
Quais sinais costumam aparecer durante a noite?
Os sintomas de apneia infantil podem variar de intensidade, mas alguns sinais merecem atenção especial:
- Pausas perceptíveis na respiração durante o sono.
- Ronco frequente ou intenso.
- Engasgos ou sensação de sufocamento enquanto dorme.
- Respiração predominante pela boca.
- Sono agitado, com mudanças frequentes de posição.
- Suor excessivo durante a noite.
- Despertares frequentes.
- Respiração com esforço durante o sono.
A presença desses sinais não confirma o diagnóstico de apneia do sono. No entanto, quando eles ocorrem de forma repetitiva, a criança deve ser avaliada por um otorrinolaringologista, que investigará possíveis obstruções das vias aéreas e definirá a necessidade de exames complementares.
Quais sintomas podem surgir durante o dia?
Os efeitos da apneia do sono não se limitam ao período noturno. Como o organismo da criança deixa de alcançar um sono verdadeiramente reparador, algumas repercussões tornam-se evidentes também durante o dia.
Entre elas, destacam-se:
- Déficit de atenção
- Dificuldade de concentração
- Hiperatividade
- Irritabilidade
- Sonolência diurna, principalmente nas crianças maiores
- Queda no rendimento escolar
- Cansaço persistente, mesmo após muitas horas de sono
Esses sinais, isoladamente, podem estar presentes em diferentes situações da infância. No entanto, quando aparecem associados às alterações respiratórias durante o sono, reforçam a necessidade de uma investigação especializada para identificar a causa do problema.
Por que a criança para de respirar durante o sono?
Essas pausas acontecem quando a obstrução das vias aéreas deixa de causar apenas o ruído do ronco e passa a fechar temporariamente a passagem do ar. Nesses momentos, o fluxo aéreo é interrompido por alguns segundos, reduzindo a oxigenação do organismo e obrigando o cérebro a reagir com pequenos despertares para restaurar a respiração.
Na infância, a causa mais frequente da apneia obstrutiva do sono é o aumento das amígdalas e das adenoides. Quando essas estruturas ocupam mais espaço do que o habitual, elas reduzem a passagem do ar e favorecem episódios repetidos de obstrução respiratória.
Outras condições também podem contribuir para esse bloqueio, como obesidade, alterações craniofaciais e algumas doenças neuromusculares. Embora sejam menos frequentes, elas também fazem parte da investigação clínica.
Identificar a origem da obstrução é uma etapa indispensável para o tratamento. Por isso, a avaliação realizada pelo otorrinolaringologista vai além da confirmação da doença: ela procura identificar a causa da dificuldade respiratória para definir a conduta mais adequada para cada criança.
Entenda como a adenoide aumentada pode interferir na respiração durante o sono.
Quais são os riscos da apneia do sono não tratada?
Quando uma criança apresenta episódios repetidos de apneia durante o sono, o problema vai muito além das pausas respiratórias observadas pelos pais. Cada interrupção da respiração desencadeia uma série de alterações que se repetem diversas vezes ao longo da noite e afetam o funcionamento normal do organismo.
Por esse motivo, a apneia do sono em crianças não deve ser encarada apenas como um distúrbio corriqueiro do sono. Sem diagnóstico e tratamento adequados, ela pode comprometer o crescimento, o desenvolvimento cerebral, o comportamento e a saúde cardiovascular.
Quanto mais cedo a doença for identificada, menores serão as chances de que essas alterações interfiram no desenvolvimento infantil.
O que acontece com o organismo durante uma crise de apneia?
Sempre que a passagem do ar é interrompida, os níveis de oxigênio no sangue diminuem temporariamente. Essa redução repetida da oxigenação recebe o nome de hipóxia intermitente.
Ao perceber essa queda de oxigênio, o cérebro reage automaticamente para proteger o organismo. Mesmo que a criança não acorde completamente, ele promove pequenos despertares involuntários para restabelecer a respiração.
Esses episódios são chamados de microdespertares. Na maioria das vezes, eles passam despercebidos pelos pais e pela própria criança. Ainda assim, interrompem repetidamente os ciclos naturais do sono e impedem que o organismo permaneça tempo suficiente nas fases mais restauradoras do sono.
O fenômeno é conhecido como fragmentação do sono. Na prática, isso significa que a criança pode permanecer muitas horas na cama e, ainda assim, acordar sem ter recuperado plenamente suas funções físicas e cognitivas.
É justamente a combinação entre hipóxia intermitente e fragmentação do sono que explica boa parte dos riscos da apneia do sono durante a infância.
Como a apneia pode afetar o cérebro da criança?
O cérebro infantil passa por um período intenso de desenvolvimento. Durante o sono profundo, ocorrem processos fundamentais para a consolidação da memória, o aprendizado, o equilíbrio emocional e a organização das informações adquiridas ao longo do dia.
Quando esse sono é interrompido repetidamente pelos microdespertares, essas funções deixam de acontecer de maneira adequada.
Com o passar do tempo, a privação de um sono profundo e contínuo compromete o funcionamento de áreas responsáveis pela atenção, pela aprendizagem, pela memória e pela regulação do comportamento. É por isso que muitas crianças com apneia apresentam dificuldades que, à primeira vista, parecem não ter qualquer relação com a qualidade do sono.
Quanto mais tempo essas interrupções respiratórias permanecem sem tratamento, maior pode ser o impacto sobre o desenvolvimento neurocognitivo, especialmente em uma fase da vida em que o cérebro ainda está em pleno amadurecimento.
A apneia interfere no crescimento?
Sim. Esse é um dos impactos mais importantes da doença e, ao mesmo tempo, um dos menos conhecidos pelas famílias.
Grande parte da produção do hormônio do crescimento (GH) acontece durante as fases mais profundas do sono. Quando esses estágios são interrompidos repetidamente pelos microdespertares, a liberação desse hormônio pode ser reduzida.
Ao mesmo tempo, cada episódio de interrupção da respiração faz o organismo ativar mecanismos de defesa para voltar a respirar normalmente. Como consequência, ocorre aumento da produção de cortisol e adrenalina, hormônios relacionados às respostas ao estresse.
Nem toda criança com dificuldade para crescer tem apneia do sono. Entretanto, quando o atraso no crescimento está associado aos sintomas de apneia infantil, a investigação torna-se ainda mais importante.
Quais são os riscos para o coração?
A apneia do sono também pode repercutir sobre o sistema cardiovascular. Sempre que a respiração é interrompida, o organismo precisa fazer um esforço adicional para manter a oxigenação dos tecidos. Quando esse mecanismo se repete continuamente, aumenta a carga de trabalho do coração e da circulação pulmonar.
Nas crianças, o diagnóstico e o tratamento precoces reduzem significativamente a possibilidade de evolução dessas alterações. Ainda assim, quando a doença permanece sem tratamento por longos períodos, podem surgir repercussões como sobrecarga cardíaca, aumento da pressão na circulação pulmonar e maior esforço cardiovascular durante o sono.
Essas complicações reforçam que a apneia não deve ser encarada apenas como um problema relacionado ao ronco, mas como uma condição capaz de interferir em diferentes sistemas do organismo.
Como é feito o diagnóstico da apneia do sono em crianças?
Quando existe suspeita de apneia do sono em crianças, o diagnóstico começa com uma avaliação clínica detalhada. Mais do que confirmar a presença da doença, essa consulta tem como objetivo identificar a causa da obstrução das vias aéreas, já que o tratamento depende diretamente dessa informação.
Durante o atendimento, o otorrinolaringologista conversa com os pais sobre os sintomas observados durante o sono, investiga alterações no comportamento da criança ao longo do dia e realiza um exame físico cuidadoso das estruturas do nariz, da garganta e da boca.
Relatos como “meu filho para de respirar dormindo”, “ronca todas as noites”, “dorme de boca aberta” ou “parece fazer força para respirar” ajudam o especialista a compreender melhor o padrão respiratório e direcionar a investigação.
Além da avaliação clínica, o médico verifica se há aumento das amígdalas, das adenoides ou outras alterações anatômicas capazes de dificultar a passagem do ar durante o sono.
Em alguns casos, essa avaliação já permite identificar a principal causa da obstrução. Em outros, é necessário recorrer a exames complementares, como a polissonografia, para confirmar o diagnóstico e determinar a gravidade da doença.
Como funciona o exame de polissonografia infantil?
A polissonografia infantil é considerada o principal exame para confirmar o diagnóstico da apneia do sono e avaliar sua gravidade.
Durante uma noite inteira de sono, sensores posicionados de forma confortável no corpo da criança registram diferentes funções do organismo, entre elas:
- Frequência respiratória
- Fluxo de ar pelo nariz e pela boca
- Níveis de oxigenação do sangue
- Frequência cardíaca
- Movimentos do tórax e do abdome
- Estágios do sono
- Movimentos corporais
Esses registros permitem identificar quantas pausas respiratórias ocorreram durante a noite, quanto tempo duraram e qual foi o impacto sobre a oxigenação e a qualidade do sono.
É natural que alguns pais fiquem apreensivos quando recebem a indicação desse exame. No entanto, a polissonografia é indolor, não invasiva e realizada com monitorização contínua, respeitando o conforto e a segurança da criança durante toda a avaliação.
Uma revisão publicada na revista Sleep Medicine em 2026 estima que a apneia obstrutiva do sono pediátrica afeta cerca de 3% das crianças e está associada a consequências neurocognitivas, comportamentais e cardiovasculares adversas. O estudo reforça ainda que a polissonografia (PSG) permanece o padrão-ouro para confirmação diagnóstica, embora o acesso ao exame ainda represente um desafio em algumas regiões.
As informações obtidas permitem confirmar o diagnóstico, classificar a gravidade da apneia e orientar a escolha do tratamento mais adequado para cada paciente.
Como é feito o tratamento da apneia do sono infantil?
O tratamento da apneia do sono em crianças depende da causa da obstrução, da intensidade dos sintomas e dos resultados da investigação clínica. Por esse motivo, não existe uma única abordagem para todos os pacientes.
Quando o aumento das amígdalas e das adenoides é responsável pela obstrução das vias aéreas, o tratamento cirúrgico pode ser indicado após avaliação individualizada. Em outras situações, a conduta pode envolver tratamento clínico, controle de doenças associadas, acompanhamento da evolução da criança e outras medidas definidas pelo especialista.
O objetivo não é apenas reduzir o ronco ou melhorar a respiração durante a noite, mas restaurar um sono de qualidade e interromper as alterações que podem comprometer o crescimento, a aprendizagem e a saúde infantil.
Quanto mais precoce for o diagnóstico, maiores são as chances de evitar os riscos da apneia do sono e proporcionar uma recuperação completa da qualidade do sono.
Quando procurar ajuda?
Observar uma criança roncando ocasionalmente durante um resfriado nem sempre indica um problema importante. Quando o ronco é frequente e vem acompanhado de pausas respiratórias, engasgos, respiração pela boca, sono muito agitado ou outros sintomas de apneia infantil, é importante procurar avaliação especializada.
Também merecem atenção situações em que a criança apresenta déficit de atenção, dificuldades de aprendizagem, irritabilidade, sonolência durante o dia ou atraso no crescimento, principalmente quando esses sinais estão associados às alterações respiratórias durante o sono.
Proteja a saúde física e cognitiva do seu filho
Se você percebeu que seu filho apresenta quaisquer dos sintomas apresentados aqui, não adie a investigação, agende uma avaliação com a Dra. Allyne Capanema.
A apneia do sono em crianças não é uma condição que deva ser acompanhada apenas com expectativa. Quanto mais cedo a causa da obstrução for identificada, maiores serão as chances de proteger o desenvolvimento físico e cognitivo.

Sobre a autora
Dra. Allyne Capanema
Otorrinolaringologista Pediátrica | CRM 73005 | RQE 56656
Especialista em Otorrinolaringologia Pediátrica, com atuação voltada ao diagnóstico e tratamento das doenças do ouvido, nariz e garganta na infância, incluindo distúrbios respiratórios do sono, respiração nasal, alterações das amígdalas e da adenoide, além de procedimentos cirúrgicos quando indicados.
Perguntas Frequentes
A apneia do sono infantil sempre precisa de cirurgia?
Não. O tratamento depende da causa da obstrução das vias aéreas e da gravidade da doença. Cada criança deve ser avaliada individualmente pelo otorrinolaringologista.
A apneia do sono infantil tem cura?
Em muitos casos, sim. Quando a causa da obstrução é identificada e tratada corretamente, é possível controlar ou resolver a apneia. A conduta depende da origem do problema e deve ser definida após avaliação individualizada do otorrinolaringologista.
A polissonografia infantil é feita em hospital?
O exame pode ser realizado em laboratórios especializados ou em serviços habilitados para avaliação do sono, seguindo protocolos específicos para crianças.
A polissonografia infantil dói?
Não. A polissonografia é um exame indolor e não invasivo. Os sensores apenas registram informações sobre o sono durante toda a noite.
A apneia pode prejudicar o crescimento da criança?
Sim. Quando não é tratada, a apneia pode interferir na produção do hormônio do crescimento, além de comprometer a qualidade do sono, fator essencial para o desenvolvimento infantil.
A apneia do sono pode afetar o aprendizado?
Pode. A fragmentação do sono e a redução da oxigenação podem prejudicar funções importantes do cérebro, favorecendo dificuldades de atenção, concentração, memória e desempenho escolar.
